Vítimas




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Mateus levanta-se. Move-se com dificuldade. Caminha até fora do foco para apanhar mais bebida. O interfone toca. Ele retorna com uma garrafa cheia. Mateus sai do foco para atender o interfone imaginário.

Mateus    -    Quem? Não... pode mandar subir!

Mateus olha ao redor, analisando as condições do apartamento. Começa a recolher algumas garrafas... mas desiste. Tenta ao menos melhorar um pouco sua aparência. Pega a garrafa e dá um longo gole. Acaba por cair cansado na poltrona. Batida na porta, ou campainha

Mateus    -    Entra, tá aberta!

Entra Jaqueline impetuosamente. Ela está vestida da mesma forma que estava para o encontro. 
Ela nem olha Mateus e começa a falar.

Jaqueline    -    Só me responde uma pergunta! Só uma: porque você bebe? Eu só quero entender porque você bebe!

Tempo. Jaqueline vira-se. Os olhares se encontram. 

Entra música triste e suave.

Os dois ficam se olhando a distância durante algum tempo. Mateus está rendido. Jaqueline compadece-se dele.

Mateus    -    Eu... não sei...

Jaqueline constata as péssimas condições do apartamento de Mateus.

Jaqueline    -    Nossa...

Mateus    -    ...

Jaqueline caminha até onde Mateus está e senta-se no braço da poltrona, ao lado dele.

Música cresce.

Mateus deita sua cabeça no colo dela.

Musica diminui e acompanha a cena que ganha um ar de ternura.

Jaqueline    -    É pior Mateus... Você está muito pior do que eu imaginava.

Mateus    -    Como você me achou?

Jaqueline    -    Você me deu seu cartão, lembra?

Mateus    -    Não! (tempo) Você veio me salvar?

Jaqueline    -    Eu... não sei se posso Mateus! Eu não consigo salvar nem a mim mesma!

Os dois se olham por um instante.

Mateus    -    Você ainda está sozinha?

Jaqueline    -    ...

Mateus    -    Você está linda... bom, até no hospital você estava linda!

Jaqueline    -    Porque você bebe, Mateus? Eu não consigo entender.

Mateus    -    Quando eu bebo, meu coração se aquece. Não o coração dos médicos, mas o coração dos homens. Uma ternura absurda me invade e eu consigo ser um pouco mais humano, eu sinto as cores, eu percebo gotículas de uma névoa ao meu redor que tentam me conduzir... Eu me emociono com a existência e a vida se torna poesia, ganha algum sentido. Você é poesia... Você não precisa beber, porque essa poesia salta do seu íntimo e te faz linda. Eu... eu preciso beber pra perceber sua verdadeira beleza...

Jaqueline levanta-se. Mateus fica na poltrona, apanha a garrafa e dá mais um gole. Ela, confusa faz menção de sair. Caminha alguns passos e depois pára.

Mateus    -    (confuso) Eu bebo... simplesmente isso...

Jaqueline resolve voltar. Senta-se novamente bem próxima dele.

Silêncio.

Os dois se beijam. Jaqueline pousa a cabeça dele em seu colo.

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Jaime Celiberto
Junho/04
00:05

Outono
Mas fazendo um inverno sensacional,
Dentro e fora de mim.