Usando como pano de fundo a relação de dois jovens de cidades distantes e idades diferentes o texto acompanha o processo de transformação e amadurecimento de um grupo de adolescentes. Os ritos de passagem são apresentados metaforicamente com as primeiras conquistas e a dor inerente das primeiras perdas. Sem ser didático o texto aborda temas como: preconceito, violência urbana, primeiro amor e iniciação sexual.
Dois jovens se conhecem em uma praia. Apaixonam-se. Moram distantes, mas mesmo assim estabelecem um relacionamento à base de e-mails, telefonemas e encontros bem esporádicos. O namoro dos dois é acompanhado de perto pelo melhor amigo dele e a melhor amiga dela. Ela aos 17 anos ingressa numa faculdade de cinema e é ativista de um movimento estudantil. Ele é uma adolescente comum de 16 anos que ao tentar fazer parte da vida dela, encanta-se com as pequenas descobertas da vida.
Comédia romântica que a partir dos poemas do escritor Ulisses Tavares (80 livros publicados), acompanha o cotidiano de quatro jovens à procura de suas identidades perante a sociedade. O olhar adolescente, sua inquietude, seus conflitos, suas paixões fazendo questionar-nos nossas próprias escolhas e caminhos.
Vencedor do Prêmio Funarte de Dramaturgia de 2005
Teatro para infância e Juventude
Ministério da Cultura
Cena 12
Entram Igor e Brisa. Ela está lendo um livro. Ele vai ao telefone.
Brisa -
Fofoca, língua de sogra,
Fulano fez isto, beltrano fez aquilo,
Gostamos do boato, não da obra,
Tagarelice é com a gente mesmo
Brasileiro fala pra caramba
Em horas boas e nas incertas
Mas tanto fala que até acerta.
O telefone toca.
Brisa - Alô.
Igor - E aí? Eu queria falar com a Alice.
Brisa - E quem é?
Igor - Aqui é o Igor!
Brisa - Da onde?
Igor - Como assim da onde?
Brisa - Da onde, da onde ué?! Da telefônica, da locadora, do clube, do partido, do...
Igor - O gente complicada! É o seguinte... eu não sou de nenhum da onde.
Brisa - Assim fica difícil!
Igor - Ô Alice... é o seguinte, eu só liguei pra dar um recado do...
Brisa - Eu não sou Alice.
Igor - Mas eu queria falar com ela!
Brisa - Já falei, eu não sou Alice, eu sou a Brisa. Que cara complicado.
Igor - Tá bom! Então eu devo ter ligado errado.
Brisa - Porque?
Igor - Porque se não tem nenhuma Alice aí, é porque eu liguei errado.
Brisa - E quem falou que não tem Alice aqui?
Igor - E tem?
Brisa - Não...
Igor - Aí, caramba!!!
Brisa - Não no momento, ela saiu!
Igor - Ô dona ventinho...
Brisa - É Brisa!
Igor - (choramingando) Eu só queria falar com a Alice...
Brisa - Entendo que você queria e agora não quer mais, porque ela num tá... mas se você falar de onde está falando eu posso anotar o recado... Você é da biblioteca?
Igor - Não, não e não! Eu não sou de nenhum lugar... eu não sou da biblioteca! Eu odeio livros!
Brisa - Como você odeia livros? Olha se você lesse o livro que eu tô lendo... você jamais odiaria livros... escuta, vou te ler um trechinho:
No fundamental um
Fugia da aula
No fundamental dois
Só namorava a Paula
No ensino médio
Entrava mudo saia calado
Hoje está assim
Um burro diplomado.
Igor - Que que é isso?
Brisa - Poesia...
Igor - e pra que serve?
Brisa - Como assim pra que serve?
Igor - Fala sério!!! Alguém ganha dinheiro com isso? Você já viu alguém famoso lendo poesia? Você já viu alguém no Big Brother lendo um livro?
Brisa - Não Ignóbil, poesia não serve pra nada disso!
Igor - Não é Ignobil, é Igor!
Brisa - Nossa! Desisto! Depois dessa ... o que você quer, heim?
Igor - Falar com a Alice
Brisa - Já falei que ela não tá?
Igor - Já!!!
Igor - Quero!!!!
Brisa - Então fala!!
Igor - Eu vou falar...
Brisa - Fala logo!
Igor - Eu to tentando, mas você não fica quieta...
Igor - Alô... você taí?
Brisa - Tô quieta...
Igor - Ai meu Deus!!! Olha é o seguinte... O Gabriel...
Brisa - Peraí! Você é amigo do Gabriel?
Igor - Sou...
Brisa - E porque você não falou logo?
Igor - Porque você não deixou!
Brisa - Tá bom vai... fala... aconteceu alguma coisa?
Igor - Aconteceu...
Brisa - Ai meu Deus! O que foi que aconteceu? Ele foi atropelado por um boi? Furou uma pata do cavalo que tava trazendo ele?
Igor - Quase... ele perdeu o ônibus. Vai chegar duas horas atrasado.
Brisa - Xiiiiiiiiiiiii... como vocês diriam aí no interiorrrrrrrr: agora que a porrrrrrrrrrrca torce o rabo!
Igor - Ah! Ah! Ah! To rolando no teto de tanto rir! Ô Ar condicionado, que foi que pegou, heim?
Brisa - A Alice já saiu faz tempo. Ia passar num monte de lugar e o pior... saiu sem o celular! Ela esqueceu aqui!
Igor - O Gabriel me assassina!! Umas cinco vezes, no mínimo!
Brisa - To até vendo a Alice esperando... no mínimo ela tá falando...
Meu amor sumiu sem dar notícias.
Pode estar na China
Ou ali na esquina.
Sua ausência dói e corta
Como guilhotina.
Música. Transição de luz
23/03 de 2005
Sol em Áries
Com Aline e seu generoso amor ao telefone.
14:25
Pro parceiro e poeta
Dom Ulisses






comentários: 1
PARABÉNS PELO BLOG JAIMITO! JA TO SEGUINDO!
PUTA SAUDADE DESSA ÉPOCA, DESSE IGOR... DESSE DIÁRIO!
ABRAÇAO
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