O Pecado Nosso De Cada Dia


Esse texto nasceu em uma festa, onde a atriz Priscila
veio sutilmente me falar do projeto do grupo GEXTO.
 Logo pensei em uma história densa
 envolvendo os 7 pecados capitais,
mas, eles queriam uma comédia.
Suspirei.
Coloquei em prática tudo que aprendi
 com o Mestre Sofredini e a farsa que resultou, mais do que
valeu a pena

 Sinopse

"O PECADO NOSSO DE CADA DIA" - COMÉDIA POLICIAL escrita especialmente para o GEXTO por Jaime Celiberto, também nosso diretor: Moradores de uma pequena vila são convidados para um jantar onde Clarissa, a anfitriã, é encontrada morta. Inicia-se uma investigação sobre o caso, não apenas factual, como também moral. Baseado nos sete pecados capitais, o espetáculo aborda os mecanismos sociais criados (ou inventados) pela sociedade, que regem as relações humanas- amorosas, familiares, socias- carregado de um humor sarcástico, irônico e nada escrachado! Você, espectador, vai se deliciar com muitas de nossas histórias e personagens pois, quem nunca cometeu um pecadiiiiiiiiinho que seja, que atire a primeira pedra!

O Pecado Nosso De Cada Dia


Atriz    -    São Tomás do Sul! Tão encravada no meio do ar puro da montanha, que só há uma forma de chegar: Em cima de uma mula generosa, ou arrastando a danada montanha acima quando ela empaca. Dito isso, percebam que eles estão há dias e dias encalacrados no jantar. Forçados a uma doce convivência... Mas, o que mais impressiona, é o poder de adaptação dos sentidos humanos. O olfato, por exemplo: Imaginem que na mesa jaz há dias o resto de um banquete. Do quarto exala o olor da defunta, suas moscas e suas larvas. Sem contar que a essa altura, os bípedes presentes, já não cuidam com o devido cuidado do que chamamos de higiene pessoal.

 . . .

Rodrigo    -    Ô!!!! (tempo) Ninguém sai!


Todos    -    (olhando para Rodrigo) Ohhh!!!

Silêncio. Batem a porta. Todos se entreolham.

Todos    -    Ohhh!!!



Cena 4


Calixto    -    (de fora) Abram a porta em nome da inquestionável inspetoria geral, da moral e das virtudes!

Todos    -    Ohhh!!!

Empurra, empurra generalizado. Acabam por pôr Rodrigo à frente.

Todos    -    Abre!!!

Rodrigo    -    Eu??

Calixto    -    (de fora) Abre Logo!!

Rodrigo    -    Eu??

Calixto    -    Meus caros São-sultomazenses, abram em nome do patriarca José de José, da sua mulher branca... das índias... do seu filho retardado? (tempo) Ora, das ceroulas!!!

Narciso    -    Puta que o pariu, o cara é bom!

Ana    -    Gente, o velho sabe de tudo!

Fernando    -    Ai, ai, ai, ai, ai!

Rodrigo vai saindo pra abrir a porta.

Dora    -    Mandaram o inspetor errado!

Todos    -    (sussurrando) Não abre!

Rodrigo    -    Eu?


Calixto    -    (de fora) Pronto Boquinha... Tá vendo tudo resolvido! Ninguém abre...

Fernando    -    Gente, é só ficar quietinho que ele vai embora...

Narciso    -    Eu sabia que o cara nem era tão bom assim!

Calixto    -    Boquinha, como ninguém abre...

Ana    -    Ele tá indo embora!

Calixto    -    (singelo) Pega o querosene! Isso! Encharca bem... joga mais no telhado. Isso! Tudo resolvido. (gritando) Agora, é só tacar fogo e a gente vai embora!!!

Todos    -    Não!!!

Fernando    -    É ele! Esse ímpeto! Conheço a reputação... é ele! É Dom Calixto!

Todos    -    Abre!!

Rodrigo    -    Eu???

Todos    -    É!!!!

Fernando    -    Já vai, Dom Calixto!!!

Arremessam Rodrigo para fora.

Calixto    -    (de fora) Misericórdia!! Apaga Boquinha! Ouço meu nome...(tempo) Boquinha, joga uma água em seu cabelo que ele tá todo chamuscado. Vai criatura.

Vinheta musical. Todos se arrumam. Calixto entra, seguido de Rodrigo.

Calixto    -    (vestindo um pregador no nariz) Meus Caros!!! Meus Caros!!! Como já foi dito, me chamo Dom Calixto, inspetor mor. Representante da cúpula geral da inspetoria. Lastimo a demora mais do que seria habitual neste trajeto... digamos... único!! Porém os préstimos de meu assistente foram na verdade imprestáveis. Deveria estar aqui há três dias... Espero que me perdoem...

Fernando    -    Que é isso Dom Calixto meu caro amigo, nem percebemos...

Ana     -    Imagina, o corpo ainda nem se decompôs por inteiro.

Calixto    -    (encarando Fernando) Eu lhe conheço?

Fernando    -    (sem graça) Não pessoalmente, mas...

Narciso    -    (intervindo) Falo em nome de todos, quando digo que estamos muito felizes com a presença de um inspetor tão... tão... tão...

Dora    -    Renomado! É uma verdadeira honra!

Narciso    -    Tão... tão...

Ana    -    Virtuoso! Não haveríamos de ter presença mais adequada diante de uma tragédia como esta.

Narciso    -    Tão... Tão...

Fernando    -    Idôneo e competente. Na verdade, nem imagino porque mandaram um representante dos mais dignos, para nosso humilde vilarejo.

Narciso    -    É verdade!

Calixto    -    Compactuo com os senhores. Esse rincão de terra malfadada realmente não é digno da minha reputação... mas...

Todos riem forçosamente

Calixto    -    Sejamos breves! Devem estar ansiosos para a solução desse...

Dora    -    Crime hediondo!

Calixto    -    Na verdade, resolvi bem piores no começo da minha carreira... (apontando um pedaço de carne) O que é aquilo em cima da mesa?

Todos riem forçosamente.

Rodrigo    -    É o resto da coxa de um porco, senhor.

Ana    -    Sim, mas um crime de terrível impasse...

Calixto    -    Ora, ora... um pernil!

Ana    -    ...que necessita de toda habilidade do honorável representante da cúpula da inspetoria.

Calixto    -    Humpf!! Não levarei mais que dez minutos!

Calixto faz sinal para Rodrigo passar o resto da coxa.

Rodrigo    -    Eu?

Narciso    -    Falo em meu nome e dos honestos moradores de São Tomás, que me sinto seguro e pronto a entregar minha inocência na mão firme e justa da imparcialidade de vossa vasta experiência, (pausadamente) caro Dom Calixto.

Calixto    -    (encarando Narciso) Sei. Sei. Sei... (para Rodrigo) Vamos rapaz... Passe-me esse pernil.

Rodrigo    -    Mas senhor!? Esta perna de porco esta necrosada nessa mesa há mais de uma semana. (passa-lhe a carne)

Calixto    -    (ainda com o prendedor no nariz) Filho... (mordendo a carne) o que o nariz não sente o estômago não reclama.

Todos riem nervosamente.

Calixto    -    Com licença senhores! Vou fazer uma visita ao nosso cadáver. Tenho uma ou duas perguntinhas pra fazer para ele. (ri) Entenderam? Cadáver... perguntinhas... (Tempo) Senhores, eu fiz uma piada!

Todos riem forçosamente.

Dora    -    Eu vou com o senhor!

Fernando    -    Eu também!

Ana    -    Faço questão!

Narciso    -    Eu não vou nem a pau!

Calixto    -    Meus caros... eu e os "presuntos" somos velhos conhecidos. Se me permitem, mantenho-me no direito de não expor nossas intimidades frente aos senhores...

Vai saindo. Cochicho geral.

Calixto    -    (voltando) Porém, quando eu voltar, espero encontrar todos reunidos e um ambiente propício, como rezam as tradições, para uma sessão final de inspetoria... (vai saindo) Tem certas horas que adoro o que faço!

Entra música. Transição de cena.


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Jaime Celiberto
2005