Quem é mais culpado?
Um homem que rouba um banco,
ou um homem que funda um banco??
Bertold Brecht
Mas que droga!!! Na verdade meu cérebro sempre foi limitado. Eu nunca estudei e nem aprendi uma profissão, mesmo que tivesse tentado aprender, não ia conseguir. Nunca consegui guardar muita coisa dentro da cabeça. Mal sei ler e escrever. Da matemática sei apenas somar e subtrair; dividir e multiplicar sempre é muito complicado e me deixa com dor de cabeça. Quando tento fazer qualquer conta, acabo desistindo sem ter terminado. Mas além disso, na época, tinha o problema do meu temperamento: a porcaria era que sempre me chamavam de grosso, de estúpido e eu acabava ficando com muita raiva e resolvia as coisas no braço, uma vez que usando a cabeça eu sempre ficava em desvantagem. E o resultado era sempre o mesmo: sem trabalho, sem dinheiro, sem amigos e tendo que começar tudo de novo. Dessa vez eu achei que ia ser diferente. Pelo menos eu ia me comportar diferente.
No primeiro dia, conheci Seu André, homem sério, alto, loiro, rosto vermelhão...! Logo entendi que ele era o patrão. Ele nem olhou pra mim (eu também não fiquei olhando pra ele, não!). Ele foi seco e antes de falar sobre minhas obrigações, já foi direto nas tais regras:
- Não fale com ninguém!
- Se alguém que não for eu, lhe dirigir a palavra, ignore!!!
- Não entre no prédio sem ser chamado!
- Muito menos ande pelos corredores!
- É expressamente proibido entrar nas salas!
- E principalmente: Não espiar!! Não perguntar!! Não bisbilhotar!!!
Entendi: era só eu ficar quieto, no meu canto, fazendo meu trabalho. Não falar e não fuçar!! Mas no começo não foi nada fácil.
Começava trabalhar as 6:00 hs. Meu quarto era isolado e ficava do lado do pátio. Era um quarto pequeno de móveis velhos. Do lado de fora tinha um banheiro com chuveiro. Aquela era minha casa. Era ali que eu vivia. Então não precisava ficar andando por aí... saía do meu quarto e já estava no pátio, pronto pra trabalhar. Mas acontece que todos os dias, exatamente as 8:00 hs, começava a parte difícil: Os gritos... gritos e mais gritos, gritos sem fim. Vinham de todos os lados e ao mesmo tempo. Parecia que nunca iam parar. Eu lá... tentando cuidar do pátio e das plantas, e aqueles gritos horríveis. Gritos de dor, de pânico, de medo. Eram urros, gritos de terror, gemidos gritados. No começo meu estômago ficava virando dentro da minha barriga. Parecia que aqueles gritos entravam dentro de mim e davam nós nas minhas tripas. Era como se a qualquer momento, seria eu quem estaria lá, gritando. Eu sentia isso. Exatamente isso. Eu seria o próximo.
. . .
cont...
Pra todas as pessoas do mundo que
são dominadas por outros Homens.
Sofrendo tanto quanto essas personagens
Inverno de 2000






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