Morangos Selvagens
Sinopse
Um jovem escrivão metido a dramaturgo parte de uma carta de Van Gogh, ao irmão Théo, na qual o pintor declara seu amor pela prima Kee, para construir sua obra prima.
Em contra partida, o próprio dramaturgo, encontra-se com a Jovem e tempestuosa Vivi, que muda radicalmente os rumos da sua vida: leva-o a dedicar-se exclusivamente ao seu texto ao mesmo tempo em que o conduz, numa bonita jornada (mas nem um pouco tranqüila), até a descoberta do verdadeiro amor.
A vida de Van Gogh e sua obra fundem-se e confundem-se aos personagens nessa deliciosa comédia romântica.
Cena 4
Luz Abrindo em resistência. Alex e Vivi, estão sentados na mureta de uma praia. É noite. Som de ondas quebrando. Ele acompanhado de uma mochila e sua máquina de escrever.
Alex - Por que será que as coisas na vida da gente, quebram de um jeito, que não dá pra consertar? Por que eu não posso simplesmente ir lá e voltar tudo? Por que?
Vivi - Porque quando as coisas quebram, elas ficam do jeito que a gente pediu para que elas ficassem! Agora, tudo está onde deveria estar. Vamos?
Alex- - Vamos?! Não... olha! Eu vou embora mesmo! Não posso ficar aqui. Mas eu vou sozinho. Tá entendendo? Eu vou sozinho
Vivi - Como assim?
Alex - Vivi, vou procurar outro lugar. Vou arrumar algum emprego. Vou tocar a vidinha, longe daqui.
Vivi - Você ficou louco? Tá delirando?
Alex - Que que você quer agora? Minha vida ainda não está bagunçada o suficiente?
Vivi - Não!!! Claro que não!
Alex - Como assim, Vivi?
Vivi - Você não entendeu nada! (tempo) Eu vou com você!
Alex - O quê? Você tá louca? Nunca!
Vivi - Você não vai pra outro emprego idiota. Você vai atrás das suas coisas. De coisas realmente importantes. Terminar seu texto! Entendeu?
Alex - Vivi, eu não sou nada, eu não sou ninguém... sou apenas uma fantasia da sua imaginação! Eu não sou um escritor. Sou apenas o autor de uma única e inacabada peça de teatro... percebe?
Vivi - Eu vou com você e pronto!
Alex - Mais que diabos menina. Como você é teimosa!
Vivi - Alex, eu fico com você. Até você conseguir terminar seu texto. Eu posso trabalhar, eu posso arrumar algum dinheiro, assim você não vai precisar se preocupar com nada.
Alex - Vivi, eu não quero viver com você! Não percebe? Eu não quero dividir minha vida com ninguém! Eu não te amo! Eu nem sequer estou apaixonado por você. Me esquece... Fim da história! Aqui é que a gente se separa! Você vai pra lá e eu vou por ali, entendeu?
Tempo.
Vivi vira de canto, como que querendo esconder uma lágrima. Alex afasta-se alguns passos. Pára e volta-se pra Vivi. Percebe que ela não se moveu.
Alex - Vai... Vai embora!
Vivi - ...
Alex - Vai Vivi! Não fica aí parada! Vai embora!
Vivi - ...
Alex - Ai que saco!
Alex volta ao ponto inicial.
Alex - Você tá chorando?
Vivi - Não estou chorando (tempo). Eu ainda não aprendi a chorar.
Alex - Isso não ia dar certo, Vivi!
Vivi - Eu sei... eu também não te amo! Aliás, eu quase te odeio. Mas eu amo seu texto! Que que eu posso fazer? Infelizmente, enquanto você não acabar essa história... vocês estão ligados, entende? Não dá pra eu ficar só com o texto! É uma droga, mas pra ficar com ele eu preciso ficar com você. Infelizmente! .... eu só quero... só quero ficar do teu lado até você terminar seu texto.
Alex - Ô meu Deus! Que obsessão!!! Esquece isso...
Vivi - Não posso!! Deixa eu ir, vai? Olha... eu prometo!... Eu juro que não vou dar trabalho, que eu me comporto, que eu cuido de você!
Alex - Você cuidar de mim? E quem vai proteger a gente de você?
Vivi - Juro Alex! Nada de encrencas, nada de brigas... só até você acabar! Por favor!?
Alex - ...
Vivi - Nada de beijos, nada de interrupções.... Eu preparo a comida, trabalho e fico olhando.... de longe... nada de palpites, nada de sexo!!!
Alex - (espanta-se com Vivi)...
Vivi - Alex... ninguém ama ou vai amar seu texto mais do que eu! Você não entende?
Alex - ...
Vivi - Por favor!?
Alex - Tá bom!! A gente vai junto!
Vivi corre, pula no pescoço de Alex e beija sua boca!
Vivi - Desculpa! Nada de beijos!!!
Alex - Eu nem sei pra onde ir Vivi!! Por onde eu começo?
Vivi - Olha! Uma estrela cadente! Faz um pedido, rápido!
Alex - Pedido? Que pedido?
Vivi - Tudo bem (fecha os olhos e concentra-se) Pode deixar que eu faço o pedido por nós dois!
Alex - Talvez... tem uma casinha nas montanhas que era do meu avô! Mas faz tanto tempo que ninguém vai pra lá!
Ouve-se ao longe uma buzina de caminhão.
Vivi - Vamos! Corre Alex!! Vamos pegar uma carona!
Alex - Naquele caminhão? A gente nem sabe pra onde ele vai!
Vivi - Claro que a gente sabe... ele vai pras montanhas!
Alex - Posso saber uma coisa? Qual foi o pedido que você fez?
Vivi - O quê?
Alex - O que você pediu pra estrela cadente?
Vivi - Ah!! Pedi pra ela....
Alex - (cortando) Deixa pra lá! Não fala nada, não! É melhor eu não saber! Ó!! Ele vem vindo! Faz sinal!
Vivi - Calma ele já viu a gente!
Alex - Como uma menina como você, sabe tanto de estrelas cadentes?
Vivi - Por que eu sou uma delas! Sou uma estrelinha que caiu bêbada na sua vida!
Alex - É verdade, tinha me esquecido!
Vivi - Alex!!! Todas as meninas são estrelas! Todas elas!!!
Musica sobe. Black-out.
Jaime Celiberto
Outono de 2004
Onze horas e quinze minutos
Onze horas e quinze minutos
05 de abril
São Paulo
Coisas que ajudam a entender este texto.
Assistir Bety Blue.
Ouvir a trilha sonora de Bety Blue.
Ler “Agora que são elas” de Paulo Leminsk.
Ler cartas a Théo (cartas de Vincent ao irmão Théo Van Gogh)
Consultar um mapinha básico das constelações.
Olhar por meia hora o quadro “Noite Estrelada” (de Van Gogh)
Ter se apaixonado perdidamente por uma estrela cadente.
Ter chorando, uma vez na vida, por se apaixonar por alguém que não te ama.
Saber que morangos são vermelhos e nascem perto da terra.
Ter uma vaga noção do que é atolar o pé numa jaca de 20 Kgs.
E principalmente... e simplesmente... Amar.






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