este projeto nasceu as 11 horas de uma manhã
na sala da casa de Guarnieri.
Havia passado a noite com sua família na
volta de uma apresentação do pequeno,
e estava ensaiando um jeito
de falar ao Maestro que
gostaria de fazer um texto par duas pessoas,
para ele e a menina que fazia o pequeno (Greta Eleftheriou).
Acordei, fiquei perambulando pela casa,
esperando O Mestre se levantar.
Tomamos café e sentamos na sala,
um silêncio imenso ficou entre nós,
até que criei coragem:
- Dom Guarni, queria te falar uma coisa..
E ele me interrompeu com um gesto, e ja foi falando:
- Não Jaiminho, eu que queria te pedir algo,
é seguinte: adoro fazer o "pequeno",
mas, porque você não faz um texto pra dois personagens,
tipo pra eu e a menina podemos fazer,
seria mais fácil nas atuais condições.
Impressionante... No mesmo momento surgiu o projeto
que segue abaixo. O parte burocrática do projeto foi feita,
aprovada no Minc, porém o texto não foi finalizado.
A doença de Guarni agravou-se e o querido amigo,
foi fazer teatro em outro andar
do Universo.
O texto ficou interrompido,
talvez um dia, com algum estímulo
ache algum sentido, para finalizá-lo.
Theo e Maíra
Sinopse
Uma adolescente a qual lhe é proposto o mundo adulto. Uma jovem que começa a tomar contato com as impossibilidades de um mundo, caótico, desequilibrado e hipócrita.
Em atitude retrograda, a mãe coloca a filha para fora de casa. A jovem assume a sua nova situação e mergulha mais na sua trajetória de desvendar e vivenciar o mundo adulto.
Na sua viajem pessoal, na sua busca inicial pela vida, acaba concluindo que o mundo que lhe apresentam, que as possibilidades e principalmente as impossibilidades que o mundo lhe oferece, não lhe interessam:
“Me apresentaram um mundo que eu não quero viver e eu não tenho como mudar isso”
Restrita ao prazer das drogas, cercada de impossibilidades, decepcionada com o mundo que lhe apresentam, ela começa uma jornada auto destrutiva, semiconsciente.
Começamos contar nossa história, deste ponto.
Pega por pequeno tráfico (por fazer um avião), ela é condenada a prestar pequenos serviços comunitários, ajudar a cuidar de idosos numa “espécie” de casa de repouso.
Surge então o encontro entre a jovem e o velho.
Num primeiro momento, os dois se odeiam, como odeiam suas próprias condições.
Ela por estar sendo forçada a fazer algo, ele por estar sendo forçado ao convívio com uma jovem que julga banal.
Em comum, ambos são criaturas solitárias, abandonadas a si próprios e inquietos perante o mundo.
A relação inicial entre os dois é rasa. Conflitante. Esquiva e de certa forma agressiva. A personalidade ímpar de ambos os impulsiona a renegarem esse convívio forçado. Impede que tanto um como outro, apresente o que está abaixo da epiderme.
A primeira ação em comum entre os dois é justamente a união de forças para se separarem. Para porem fim naquela situação forçosa que ambos estão obrigados a viver.
Traçam planos e se unem para realiza-lo.
Começam a surgir momentos de cumplicidade.
A ausência de julgamento do velho para com a jovem, começa a abrir caminho para irmos além da ponta dos icebergs. Em contrapartida a Jovem começa a dar sinais do seu idealismo recém-formado, mal elaborado e abandonado.
Os dois põe em prática seu plano e ele, o velho, parece finalmente ter se livrado, dela: a jovem. Ele, o velho, constata que seus dias começavam a ser preenchidos com uma nova possibilidade. A ausência lhe mostra que o olhar da Jovem para o mundo, lhe levava a ver o mundo novamente, como que da primeira vez. O velho constata que ele, também estava re descobrindo o prazer em estar vivo.
Plano frustrado. A jovem retorna. Afundou mais e rapidamente. Está arrebentada, física, moral e espiritualmente. A dependência física da substância química está no auge. Agora ela está na verdadeira linha divisória e tem que optar: querer viver ou querer morrer.
Para optar... para o seu interior optar. Á jovem precisa de possibilidades.
A jovem precisar olhar prum mundo que até então não olhou, olhar pruma vida que até então não conheceu e olhar pruma morte que tecnicamente o velho está muito mais próximo do que ela. Essa será a viajem da jovem, instintiva, orgânica, necessária.
Por sua vez o velho, se agarra naquele fiapo de vida da jovem, como sendo ele a possibilidade de re descobrir sua própria vida, começa a buscar nesse encontro a possibilidade da sua própria essência de porque estar vivo.
Talvez, o instinto de sobrevivência, faça com que os dois acabem se agarrando um ao outro, como sendo a única possibilidade de estarem vivos.
O velho, sem lições de moral, sem falsos conceitos e sem pré-conceitos conduz a jovem a descobrir algum prazer em estar viva. Começa a lhe apresentar possibilidades. A jovem por sua vez, retribuí ávida com o desejo de descobrir aquela vida que está sendo apresentada.
Agora os dois estão expostos. Almas expostas, personalidades fortes. Os icebergs vieram a tona.
Das personagens:
O Velho Theo.
A Jovem Maíra.
Um homem que no fim da vida abandonou-se a si mesmo. Viúvo, ou divorciado há muitos anos. Decepcionado com o convívio, ou o rumo que sua família tomou.
Acaba buscando um auto exílio, onde suas necessidades possam ser supridas, sem grandes esforços.
Um antigo professor de literatura. Um bom escritor sem nenhuma projeção, mas com um trabalho consistente.
Um homem de qualquer forma criativo e que soube extrair bons momentos da vida.
Ele sofre de uma doença degenerativa lenta e que o está levando a morte. De certa forma, conformado com sua situação. Mas por outro lado, mantém suas convicções, seu orgulho e um certo protesto quanto ao mundo e a forma de viver das pessoas.
O resto de vida que lhe cabe, está vivendo dentro dele próprio, sem nenhuma intenção de dividir com os que o cercam e muito menos com o mundo.
A vida que tem é para ele e ninguém mais cabe nessa condição.
A Jovem Maíra.
Uma adolescente que descobriu as dores do mundo cedo de mais. Separação dos pais, completa inadequação com a mãe com quem vive. Descoberta da sexualidade muito precoce.
De baixo poder financeiro que causa extremas restrições e privações. Uma jovem que começa a elaborar um ideal de vida, começa a planejar um futuro e vê seus planos e ideais, se estatelarem numa parede, numa barreira sólida e intransponível.
Uma jovem que aprende cedo que a sinceridade é uma coisa absolutamente irreal no mundo adulto. Convive com a hipocrisia das pessoas que lhe causa feridas mortais.
Das pessoas que se aproximam com a intenção de ajuda-la, ou a estão querendo leva-la a um lugar onde não quer ir, ou estão se envolvendo com suas próprias intenções de proveito e prazer.
A barganha do faça isso que te faço aquilo, é para ela algo com que não consegue conviver. Para ela a vida se diz: se quero fazer algo por você, faço-o por você e não espero nada.
O prazer, relacionamentos escancarados e reais, ela vai descobrir nas drogas, Onde a necessidade de sobrevivência acaba estabelecendo relacionamentos momentaneamente sinceros. O objetivo comum, alimentar sua necessidade da substância, e o jogo para conseguir a substância, aproximam pessoas e repulsa outras pessoas.
Com o convivo com a droga descobre perigos reais e um caminho auto destrutivo, que em algum momento ela entende como sendo uma saída digna. Um abreviar o sofrimento de toda uma vida. Um não compactuar com um mundo adulto a qual ela não quer pertencer.
Do texto
Penso no texto, pra ser mais claro, na história, quase que como uma fábula. Algo que transpasse um pouco a necessidade do real. Quase um conto mítico, onde dois seres com caracteres tão fortes, tão bem formados, fosse impossível existir.
Penso na história de amor que os une. Um amor impossível, como nas histórias em que o amor é impossível pela própria natureza dos fatos.
Como por exemplo, no Gato Malhado e Andorinha Sinhá de Jorge Amado. Simplesmente um gato não pode “casar” com uma andorinha.
Quando penso na impossibilidade do amor, me remeto ao amor incondicional. Aquele em que o objeto de amor, não é amado para si próprio, mas para o mundo. O amor livre de julgamentos e de conceitos. O amor sanado da condição patológica em que torna-se destrutivo e auto destrutivo.
A impossibilidade do amor, me remete para a possibilidade de vida. Seres que se amam, mas que não podem se “possuir”. Livres da posse, ambos se sentem livres para viver, deixarem viver e estarem juntos para enfrentar o mundo.
E isto é quase uma fábula.
Vejo a história, como um apontar para possíveis saídas. Para um questionamento da própria essência, sempre com um bom humor de quem está superando etapas. Penso numa história absolutamente sensível, poética. Vejo claramente a necessidade de humor e sensibilidade.
outubro e novembro
2003
que saudades meu irmão, meu amigo









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