Pequeno - Diário do Grande ABC


Diário do Grande ABC

Cultura e Lazer – pág 3

Terça-feira, 13 de maio de 2003

 

Guarnieri em volta revigorante


Jaime Celiberto, de S. Caetano, é autor e diretor da peça que fez ator quebrar jejum de quatro anos

Mauro Fornando De Redação

Após quatro anos longe dos palcos, Gianfrancesco Guarnieri, 69 anos, está de volta. O Pequeno Livro das Páginas em Branco, texto e direção de Jaime Celiberto, de São Caetano, estréia hoje no Centro Cultural São Paulo. Um dos nomes mais importantes do teatro brasileiro, Guarnieri atua ao lado de Greta Elefhteriou, Lara Córdula, Henrique Ramiro, José Roberto Jardim e Pedro Henrique Moutinho. "A peça trata da superação da perda", afirma Celiberto. Greta interpreta Natália, uma adolescente de 17 anos cujo pai acaba de morrer. Lara faz a mãe. Logo após o velório, Natália resolve mudar-se para a casa do avô (Guarnieri), que mora numa praia. Seu irmão, Dinho (Ramiro), o primeiro namorado, Ivan (Jardim), e o atual (Moutinho) também integram o rol de personagens.

"Natália tem personalidade forte, decide largar a escola e morar com o avô porque vive uma fase conturbada, tendo de optar por determinadas coisas. Com a morte do pai, esse processo se acelera. Ela tem dois horizontes para atravessar, o passado recente e o futuro", diz o autor e diretor. A garota tinha uma ligação grande - rompida pela adolescência - com o avô, que não via há quatro anos.
"Para Natália, o reencontro representa o traçar de uma linha de identidade, o resgatar de alguns valores e o acrescentar de outros, da vida adulta", afirma Celiberto. São os tais dos ritos de passagem. O avô tão necessário à garota quanto ela a ele. "A partir do reencontro a vida dele se transforma diz. Há um choque de gerações. "Existe, também faz parte do show. Alguém que se atira para a vida sempre cria conflitos familiares."
Suspense - Há um jogo de mistério que permeia a montagem, a responsabilidade de Natália sobre a morte do pai a peça responde essa questão de maneira sutil. "Não é a tônica do espetáculo. Mas essa dúvida interna dela é uma das molas que a levam para o avó A tônica é como ela sairá dessa (situação) e para onde ir, quando sair", afirma o autor e diretor. "Apesar de falar sobre a perda, o espetáculo nunca é `para baixo`. Ele não trata da dor da morte, mas da superação dela."
O convite a Guarnieri foi iniciativa de Lara. "Uma das propostas do projeto é contrastar uma jovem atriz com a experiência de um grande ator. Mandamos o texto para o Guarnieri numa sexta-feira, e ele aceitou no sábado. É maravilhoso ver a Greta e eu aprendendo com ele e ele se revigorando", diz Celiberto. Guarnieri faz sessões de hemodiálise às segundas e quintas feiras, e subirá no palco às terças e quintas.

Celso Ohi, de São Bernardo, assina o cenário e Tuti Fornari, também de São Bernardo, a trilha. "O cenário é uma praia cenográfica. A trilha é meio cinematográfica, e executada ao vivo por seis músicos", afirma Celiberto.






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Cultura e Lazer – pág 3

Terça-feira, 13 de maio de 2003


 Dramaturgo define seu teatro jovem

    Premiado em 2002 no Concurso Nacional de Dramaturgia da Secretaria de Estado da Cultura, O Pequeno Livro das Páginas em Branco se inclui no chamado teatro jovem. A discussão sobre faixas etárias no teatro Inflama Jaime Celiberto, autor também de Beijos, Escolhas e Bolhas de Sabão, texto premiado há dois anos pelo mesmo concurso.
"As pessoas confundem jovem com infanto-juvenil. Romeu e Julieta (de William Shakespeare) não seria teatro jovem porque a história passa pela ótica de dois adolescentes? 0 Pequeno Livro é isso, uma história adulta contada pela ótica de uma garota de 17 anos", diz Celiberto. "A peça é uma forma de traduzir anseios pertinentes a uma faixa etária específica, com os ritos de passagem dessa fase da vida."

Para o autor e diretor, a classificação de peças por faixas de idade configura "um pré-conceito pertinente ao ser humano". Celiberto divide o teatro em duas categorias: bom e ruim. "O (Vladimir) Capella (premiado autor e diretor de, entre outras" peças, Miranda, em cartaz no Sesc Belenzinho, em São Paulo), por exemplo, não faz teatro só para crianças. Ele pega questões da alma humana. O bom teatro não tem idade. O que existe são temáticas", afirma. Celiberto considera "gostoso tratar temas adolescentes": "O envelhecer nos anestesia. A dor adolescente é absolutamente verdadeira. Posso falar sobre alegrias, conquistas e dores sem ser piegas".    - MF